Ligações
Biblioteca Nacional
The British Library
Direcção-Geral do Livro e das Bibliotecas
Casa da Leitura
FCG. Montra Online
Biblioteca da Faculdade de Letras da Universidade de Lisboa
BBC Radio 4. Arts and Drama Homepage
Amazon.com
Célebre poema de Almada Negreiros dito por Mário Viegas no programa Palavras Ditas.
Afinal o que é que importa? Para o surrealismo, corrente supra-realidade, é desconstruir a importância que damos às coisas. Em "Pastelaria", de Mário Cesariny (1923-2006), o que importa é ter coragem:
Afinal o que importa não é a literatura
nem a crítica de arte nem a câmara escura
Afinal o que importa não é bem o negócio
nem o ter dinheiro ao lado de ter horas de ócio
Afinal o que importa não é ser novo e galante
— ele há tanta maneira de compor uma estante
Afinal o que importa é não ter medo: fechar os olhos frente ao precipício
e cair verticalmente no vício
Não é verdade rapaz? E amanhã há bola
antes de haver cinema madame blanche e parola
Que afinal o que importa não é haver gente com fome
porque assim como assim ainda há muita gente que come
Que afinal o que importa é não ter medo
de chamar o gerente e dizer muito alto ao pé de muita gente:
Gerente! Este leite está azedo!
Que afinal o que importa é pôr ao alto a gola do peludo
à saída da pastelaria, e lá fora — ah, lá fora! — rir de tudo
No riso admirável de quem sabe e gosta
ter lavados e muitos dentes brancos à mostra
Com a data de Junho de 1821, escrito em Agra, este curioso poema de Almeida Garrett chama-se “O Ananás”, glosando dois versos de Filinto Elísio.
Tal vive o sábio, estrangeira planta,Em terreno ignorante. Filint.
Coroado rei dos filhos de Pomona,
Quão galhardo e formoso
Entonas essa frente de monarca,
E a púrpura doirada
Vestes na linda cor com que te envolve
A rica natureza!
Oh! como pôde as leis assim cortar-te
Arte engenhosa d’homens,
E, desvairados climas confundindo,
No acobertado encerro
A pátria dar-te, e fecundar-te os germes
No mui feliz exílio!
Destarte o sábio, que rodeiam gelos
De ríspida ignorância,
O hábito foge dos ruins que o cercam;
Cria-se nova pátria
Na solidão, cos livros, coa virtude,
E no olvido dos néscios.
Tal nos pântanos d’Haia o bom Filinto
Co seu Horácio e Musas,
Áureos frutos da lira sazonava
No solitário albergue.
Almeida Garrett, Lírica de João Mínimo (Porto: Lello & Irmão Editores, 1981), 160–161.
Aliado à metáfora da fruta, o poema não demonstra com pinceladas lúgubres um tema à partida triste — o tema do exílio (que Garrett, tal como Filinto, haveria de experimentar) —, mas confere-lhe um ar fresco e “apetitoso” (até porque o exílio é feliz). Visível o tom clássico da composição: também Ovídio foi um civilizado entre os bárbaros; em termos de vocabulário, são visíveis as escolhas de harmonia com o gosto neoclássico (olvido, néscios, áureos, lira, sazonar, entre outros).
Da autoria do escritor sueco Axel Munthe (1857–1949), O Livro de San Michele (1929) é um relato empolgante de um médico sueco (o próprio Munthe, pois a história é autobiográfica) em Itália, com várias viagens pela Europa (principalmente Paris). Não concordando com resumos da história (é sempre preciso ir ler o original na íntegra), transcrevo um longo excerto que não conta nada da história, mas que mostra o tom em que o livro está escrito. O autor disserta sobre a verdade de algumas asserções do historiador romano Cornélio Tácito acerca de Tibério, o segundo imperador de Roma.
Era no pino do Verão, num longo e radioso dia de sol. A embaixada britânica saíra de Roma e estabelecera o seu quartel-general em Sorrento. Numa varanda do Hotel Vitória estava sentado o embaixador, com o seu boné de marinheiro, examinando atentamente o horizonte através do monóculo, à espera do mistral, o melhor amigo de quem navega à vela no Estio. A seus pés, no pequeno porto, Lady Hermione, o seu bem amado cutter, balouçava-se preso à âncora, impaciente como ele por largar.
(…)
Adorava Capri e achara San Michele o sítio mais lindo que vira em sua vida, e tinha visto muitos. Conhecia pouco da larga história da ilha, mas sentida uma ansiedade infantil de aprender mais.
Eu explorava precisamente nessa época a Gruta Azul. Por duas vezes Mastro Nicola me havia retirado meio desmaiado do famoso subterrâneo que, segundo a lenda, conduzia através das entranhas da terra até ao palácio de Tibério, duzentos metros acima da planície de Damacuta, corrupção, talvez, de Domus Augusta.
Passava dias inteiros na gruta, onde lorde Dufferin vinha às vezes, na sua pequena lancha, ver-me trabalhar. Depois de um banho delicioso nas águas azuis, ficávamos sentados durante horas junto do túnel misterioso, conversando de Tibério e das orgias de Capri. Dizia eu ao embaixador que, como as outras fantasias de Suetónio, era uma fábula a passagem do subterrâneo e pretender que Tibério descia por ele à gruta para, depois de se divertir com moços e moças, os estrangular. (…) Que a gruta fosse conhecida dos Romanos, provam-no numerosos vestígios de alvenaria romana. Sabido que, desde então, a ilha se submergiu uns cinco metros, para entrar naqueles tempos na gruta passava-se pela enorme abóbada submersa, visível através da água transparente.
(…) Quanto à sinistra lenda de Tibério, legada à posteridade pelos Anais de Tácito, disse a lorde Dufferin que a história nunca cometera erro mais crasso do que o de condenar à infâmia aquela grande Imperador, pelo testemunho do seu principal acusador, “um detractor da humanidade”, como lhe chamava Napoleão.
Tácito foi um escritor brilhante, mas os seus Annales são um romance histórico, não história. Deve ter acrescentado as suas vinte linhas sobre as orgias de Capri para completar o quadro de tirano-tipo da escola de retórica a que pertencia. Não é difícil descobrir a fonte, mais que suspeita, onde foi buscar aquelas repugnantes fábulas. (…) Que o próprio Tácito não dava crédito às orgias de Capri é evidente pela sua própria leitura, pois que não diminuem em nada a sua opinião geral sobre Tibério como grande Imperador e notável homem, “admirável carácter e tido em grande estima”, para empregar as suas próprias palavras. O próprio Suetónio conta as histórias mais indecorosas, fazendo porém notar que “pode dificilmente admitir-se que se contem, mas menos ainda que se acreditem”. Antes da publicação dos Annales — oitenta anos depois da morte de Tibério — não havia na história de Roma um homem de Estado com reputação mais nobre e sem mancha do que a do velho Imperador. Nenhum dos vários historiógrafos de Tibério, alguns dos quais seus contemporâneos, com a possibilidade de recolher todos os rumores das más-línguas de Roma, faz a menor alusão às orgias de Capri. (…) A sua vida na ilha foi a de um velho solitário, monarca fatigado de um mundo ingrato, idealista taciturno e amargo (um hipocondríaco, diríamos talvez hoje); mas a sua magnífica inteligência e o seu sentido do humor sobreviveram à sua fé na Humanidade. Desconfiava dos seus contemporâneos e desprezava-os, e isto não é motivo para espanto, pois quase todos os homens e mulheres em quem havia confiado o traíram. Tácito cita as palavras com que, um ano antes da sua retirada para Capri, recusou a petição que lhe foi feita para lhe ser elevado um templo onde fosse adorado como um deus, à semelhança do que se fizera com Augusto. Que outro, a não ser o compilador dos Annales, o brilhante mestre do sarcasmo e da insinuação subtil, teria a audácia de citar, com ar de troça, o grave apelo do velho Imperador para um julgamento equitativo da posteridade?
Axel Munthe, O Livro de San Michele, trad. Jaime Cortesão (16.ª ed., Lisboa: Livros do Brasil, 2001), 301–303
Afonso Duarte foi um dos colaboradores da revista Presença, denominado pela crítica "órgão do segundo modernismo português". Considerada sobretudo pela vertente crítica, são muitas as pérolas literárias que aí se encontram.
Não me convidem para discursar em público: Eu não sou dos que gastam meia hora de adjectivos a empurrar um substantivo comum.
Afonso Duarte, Presença. Folha de Arte e Crítica, 1 (10 de Março de 1927), 2.
Almeida Garrett é sem dúvida um dos meus poetas favoritos. Flores sem Fruto é uma obra injustamente esquecida, mas curiosamente “As Minhas Asas” (que faz parte dessa antologia) não partilha desse lamentável esquecimento. É um poema sobre a perda da inocência, tipicamente romântica.
Eu tinha umas asas brancas,
Asas que um anjo me deu,
Que, em me eu cansando da terra,
Batia-as, voava ao céu.
— Eram brancas, brancas, brancas,
Como as do anjo que mas deu:
Eu inocente como elas,
Por isso voava ao céu.
Veio a cobiça da terra,
Vinha para me tentar;
Por seus montes de tesouros
Minhas asas não quis dar.
— Veio a ambição, co'as grandezas,
Vinham para mas cortar,
Davam-me poder e glória;
Por nenhum preço as quis dar.
Porque as minhas asas brancas,
Asas que um anjo me deu,
Em me eu cansando da terra,
Batia-as, voava ao céu.
Mas uma noite sem lua
Que eu contemplava as estrelas,
E já suspenso da terra,
Ia voar para elas,
— Deixei descair os olhos
Do céu alto e das estrelas...
Vi entre a névoa da terra,
Outra luz mais bela que elas.
E as minhas asas brancas,
Asas que um anjo me deu,
Para a terra me pesavam,
Já não se erguiam ao céu.
Cegou-me essas luz funesta
De enfeitiçados amores...
Fatal amor, negra hora
Foi aquela hora de dores!
— Tudo perdi nessa hora
Que provei nos seus amores
O doce fel do deleite,
O acre prazer das dores.
E as minhas asas brancas,
Asas que um anjo me deu,
Pena a pena me caíram...
Nunca mais voei ao céu.
Almeida Garrett, Flores sem Fruto e Folhas Caídas, ed. Paula Morão (3.ª ed., Lisboa: Editorial Comunicação, 1984), 69–71.
Classicista, Alfred Edward Housman (1859–1936) publicou dois livros de poesia, A Shropshire Lad (de 1889) e Final Poems (em 1922). O poema 15 de A Shropshire Lad baseia-se no mito de Narciso contado por Ovídio nas Metamorfoses (livro III).
Look not in my eyes, for fear
They mirror true the sight I see,
And there you find your face too clear
And love it and be lost like me.
One the long nights through must lie
Spent in star-defeated sighs,
But why should you as well as I
Perish? gaze not in my eyes.
A Grecian lad, as I hear tell,
One that many loved in vain,
Looked into a forest well
And never looked away again.
There, when the turf in springtime flowers,
With downward eye and gazes sad,
Stands amid the glancing showers
A jonquil, not a Grecian lad.
Alfred Edward Housman, A Shropshire Lad, citado em Robert DeMaria, Jr. E Robert D. Brown (ed.), Classical Literature and its Reception: an Anthology (Malden: Blackwell Publishing, 2007), 217.
O amanhecer em Thomas Mann, descrito como os autores clássicos o faziam. O homem solitário de que se fala é Aschenbach, protagonista de A Morte em Veneza.
Céu, terra e mar jaziam ainda numa palidez crepuscular, vítrea, imaterial; uma estrela perdida nadava na ausência de ser. Mas chegou um sopro de lugares longínquos, uma nova alada, e dizia que Eros se levantara do esposo, e veio então o primeiro e doce enrubescer das linhas mais distantes do mar e do céu com que a criação se anuncia aos sentidos. A deusa aproximava-se, ela que raptara Clito e Céfalo e gozava agora o amor do belo Oríon, desafiando a inveja dos deuses no Olimpo. Sobre a margem do mundo caiu uma poalha rosa, um brilho e florescer de graça indizível, nuvens infantis, banhadas de luz e transparentes, flutuavam no ar azulado e rosa como pequenos amoretti, caía púrpura sobre o mar e era espalhada pelas ondas, lanças de ouro rasgavam o ar à altura do céu, o brilho tornou-se fogo, em silêncio, com violência divina desmedida, brilho e ardor e labaredas voluteavam, e com cascos impacientes os corcéis sagrados de Apolo levantaram da esfera da Terra. Iluminado pelo esplendor do deus, o homem em vigília solitária fechou os olhos e deixou que as suas pálpebras fossem beijadas pela glória. Com um sorriso confuso, perplexo, reconheceu sentimentos passados, tormentos preciosos e prematuros do coração, que haviam perecido no ofício rígido da sua vida e que agora regressavam surpreendentemente transfigurados. Ansiava, sonhava, os seus lábios formaram lentamente um nome, e sorrindo sempre, a face virada para a frente, as mãos cruzadas no colo, adormeceu novamente na cadeira.
Thomas Mann, A Morte em Veneza, trad. Isabel Castro Silva (Lisboa: Relógio D’Água, 2004), 76.
Almeida Garrett é sem dúvida o maior poeta da literatura portuguesa de Oitocentos. Neste poema, incluído na obra Flores Sem Fruto, tematiza num tom romântico a solidão e o "regresso à simplicidade da natureza", como se afirma na leitura crítica deste poema.
Alonguei-me fugindo e vivi na
soedade.
Arraes — do Psalm.
I
Solidão, eu te saúdo! silêncio dos bosques, salve!
A ti, venho, ó natureza; abre-me o teu seio.
Venho depor nele o peso aborrecido da existência; venho despir as fadigas da vida.
Quero pensar só contigo; quero falar a sós com o meu coração.
Os homens não me deixam; amparai-me vós, solidões amenas, abrigai-me, ó solidões deleitosas.
Franqueia-me, ó soledade, o tesouro das tuas selvas; abre-me o santuário das tuas grutas.
Eu perguntarei aos troncos pelas idades que viram correr, e os troncos me responderão, meneando as suas ramas: “Elas passaram!”
Eu cantarei aos prados os meus amores; e as boninas abrirão o cálix para me dizer: “Também nós amamos.”
Interrogarei os penhascos pelos ecos das vozes dos homens; e os penhascos mudos não ousarão repetir-me os sons falazes dessa voz.
Eu direi às ruínas: “Que é das mãos que vos construíram, que é das raças que vos habitaram?”
E as ruínas se calarão; mas a pedra de um sepulcro falará por elas.
A pedra do sepulto dirá: “A morte passou, e as suas pegadas ficaram impressas no caminho dos séculos.”
Solidão, eu te saúdo! silêncio dos bosques, salve!
II
Que doce não é fugir dos homens para viver com as plantas!
Que prazer não é deixar essas habitações alinhadas pelo prumo de sua pequenez e vir no desalinho dos campos folgar em liberdade com a natureza!
Nascentes que rompeis do seio das rochas! vós não sois comprimidas nos estreitos canais que fabricou a arte:
Livres surgis da terra, livres jorrais das penhas; e livres correis dos montes a cobrejar nos prados por entre o matriz das flores.
Árvores frondosas, vegetai sem medo; a foice do jardineiro não vos despojará da rama para o monótono prazer do luxo contrafeito.
E vós, rochedos majestosos, repousai tranquilos nas elevações da terra: que não virá o cinzel do estatuário roubar-vos as formas da natureza:
Para transmitir ao neto degenerado as feições do avô ambicioso.
Solidão, eu te saúdo! silêncio dos bosques, salve!
III
Solidão, eu venho a ti, já me não quero senão no teu seio.
Trago o coração oprimido; mão de ferro mo aperta.
O espinho da dor está cravado no meio dele; a angústia o torce sem piedade.
O afogo lhe travou das artérias; todo o peso da desgraça está em cima dele.
O meu sangue já não tem vida; e circula de mau grado pelas veias froixas.
Arde-me não sei que fogo no íntimo do peito; queria chorar e não tenho lágrimas.
Travam-me na boca os azedumes do passado; a aridez do futuro secou os meus olhos.
O que foi e o que há-de ser anda-me esvoaçando pela fantasia; são pensamentos de asas negras como o corvo agoureiro.
O momento que é desaparece no meio deles; é porque não é nada.
O homem não tem senão o passado e o futuro; o passado para chorar, o futuro para temer.
O presente não é nada; e é só o que ele sabe.
Já se esqueceu do passado, e o futuro não lho disse Deus.
Eu vivo no futuro por uma esperança mais ténue que o fio da aranha; existe no passado porque ainda se me não foi o amargor dos tragos que bebi.
O presente está no meio, como o ponto no centro do círculo; mas a sua existência é quimera.
Os raios que partem para a circunferência são reais: tal é a minha vida.
Daquele ponto imaginário tiro linhas verdadeiras para que o que fui e para o que hei-de ser; todas vão parar na desgraça.
Eu tive coração, amei; ainda o tenho, e amo.
Mas o meu amor fadou-o a desventura; bafejou-o o sopro do mal.
Fui planta que só lágrimas a regaram; o sol da felicidade não se riu para ela.
Deu flores outoniças que não desabrocharam: o granizo as crestou, e a geada lhes queimou os germes.
Não houve esperança de fruto; só o prazer, mas tão louco! de as colher sem ela.
Por isso está triste a minha alma; triste até à morte.
E os homens cuidam que eu sou feliz; e eu rego de noite o meu leito com as lágrimas dos olhos.
Porque a noite fez-se para chorar, quem tem que chorar; de dia o avisado mente e ri.
Por isso eu não quero viver mais com os homens; quero chorar de noite e de dia:
A cidade é para mim o deserto; a solidão é a minha pátria.
Solidão, eu te saúdo! silêncio dos bosques salvé!
Almeida Garrett, Flores sem Fruto e Folhas Caídas, ed. Paula Morão (3.ª ed., Lisboa: Editorial Comunicação, 1984), 58–62.
O vago sugerido pelas reticências, a evocação pelas apóstrofes e exclamações de entidades abstractas (e em simpatia com o sentimento do eu poético) e a intersecção do objectivo com o subjectivo — visíveis neste poema — são características da poesia finissecular, de pendor saudosista, de que Teixeira de Pascoaes é o principal cultor.
Saio de casa. Outubro. Fria tarde.Eis-me através dum verde pinheiral.
O sol, já moribundo, chora e arde,
Gotejam sangue as árvores do val.
Seus denegridos ramos, tão esguios,Perdem-se no céu roxo e vaporoso…
E causa-me profundos calafrios
O vento, num ataque de nervoso.
Ó fulminados troncos sem folhagem,Erguendo negros braços na amplidão!
Súplicas dolorosas da paisagem,
As formas mais secretas da Aflição…
Tudo se torna indefinido, imenso…Um sonho ou morte as Cousas envolveu.
O rio tolda o espaço; é branco incenso…
Desce à terra, em penumbra e dor, o céu.
E o frio piar do mocho sobressaltaOs homens que regressam aos casais…
Que silêncio de Inverno! E já vai alta
A lua, sobre a rama dos pinhais.
Como eu vos amo, ó tardes de abandono!Vossa tristeza é irmã da minha mágoa.
Eu sou, talvez, quem sabe? um outro Outono,
Folhas mortas caindo… charcos de água…
Sou esta própria tarde, em que sozinhoVagueio, entre penumbras e tristezas…
Projecto a noite sobre o meu caminho
E em meus olhos há lágrimas acesas.
Teixeira de Pascoaes, publicado pela primeira vez em A Águia, II série, 32 (Agosto 1914), 41.